Vejam e ouçam!

Conheci o Manuel Forjaz por acaso, de repente no meu mural começam a surgir convites e conversas sobre a festa dos 50 anos do Manuel Forjaz, estranhei toda aquela confusão, e fui ver quem era o Manuel Forjaz e conheci a sua página por acaso. De repente vi alguém a falar da vida sem elefantes na sala, vi alguém aberto e confiante, vi uma pessoa que já mudou a vida a tantas pessoas, e não tem a ver com a doença, tem a ver com o modo de encarar a vida.

The Mask You Live In

Não é só nos Estados Unidos, é por cá também, imensos miúdos que se sentem sozinhos, encurralados, a única maneira de chamar a atenção é pela violência verbal ou física, imensos miúdos a quem ensinam que não é “de homem” lidar com as emoções, os “homens” têm de aguentar, e eles aguentam e aguentam e a raiva é maior e a atenção e cuidado dos outros é cada vez menor, e de repente perdem-se daqueles com quem costumavam andar e juntam-se a outros que aguentam como eles, a outros revoltados, que não podem mostrar as emoções porque são homens, e a violência aumenta, e juntos fazem asneiras, e um dia estão presos porque lhe disseram que ser homem era aguentar.
Estas histórias têm caras nomes, são visíveis, não são imaginárias, nem são daquelas que aparecem nos filmes.
Miúdos bons, miúdos que um dia será demasiado tarde para os conseguir ajudar.
É preciso ouvi-los, estender a mão, porque poderão ouvir histórias tão dolorosas como “estava no café com o meu pai e entrou um tipo que se zangou, disparou e acertou-lhe, vi o meu pai morrer ali à minha frente, a sangrar do pescoço por nada, porque não o outro não concordou com o preço do whisky*”, é preciso deixá-los chorar, chamar à vida todos os nomes possíveis e imaginários, dizer umas asneiras se for preciso. Ensiná-los que é legitimo tudo isso, que não podem nem devem aguentar. É preciso ensiná-los a canalizar essa raiva, essa angústia, no meu caso costumo fazer isso através da música, mas qualquer veiculo está bem, desde que eles possam falar e sintam que são ouvidos, é tão importante.

*infelizmente esta história é verídica e ouvi-a da boca de um aluno.

O Último Abraço

Por António Lobo Antunes.

Revi rostos, lembrei-me de vozes, não do Santa Maria mas do IPO e subscrevo.

Pequenos grande heróis que falam da doença e vivem-na com uma dignidade e força para lá do normal. Eu costumo despedir-me deles de modo diferente, as melhoras e que na próxima vez nos encontremos na rua.

O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em reis. Numa das últimas vezes que lá fui encontrei um homem que conheço há muitos anos. Estava tão magro que demorei a perceber quem era. Disse-me

– Abrace-me porque é o último abraço que me dá

durante o abraço

– Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento

e, ao afastarmo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito.

Com o meu corpo contra o dele veio-me à cabeça, instantâneo, o fragmento de um poema do meu amigo Alexandre O’Neill, que diz que apenas entre os homens, e por eles, vale a pena viver. E descobri-me cheio de respeito e amor. Um rapaz, de cerca de vinte anos, que fazia quimioterapia ao pé de mim, numa determinação tranquila:

– Estou aqui para lutar

e, por estranho que pareça, havia alegria em cada gesto seu. Achei nele o medo também, mais do que o medo, o terror e, ao mesmo tempo que o terror, a coragem e a esperança.

A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no malestar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida. O cabelo cresce-me de novo, acho-me, fisicamente, como antes, estou a acabar o livro e o meu pensamento desvia-se constantemente para a voz de um homem no meu ouvido

– Acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento

porque não aceito a aceitação, porque não aceito a crueldade, porque não aceito que destruam companheiros. A rapariga com a peruca no braço da cadeira. O senhor que não olhava para ninguém, olhava para o vazio. Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele. Vi morrer gente quando era médico, vi morrer gente na guerra, e continuo sem compreender. Isso eu sei que não compreenderei. Que me espanta. Que me faz zangar. Abrace-me porque é o último abraço que me dá: é uma frase que se entenda, esta? Morreu há muito pouco tempo. Foda-se. Perdoem esta palavra mas é a única que me sai. Foda-se. Quando eu era pequeno ninguém morria. Porque carga de água se morre agora, pelo simples facto de eu ter crescido? Morra um homem fique fama, declaravam os contrabandistas da raia. Se tivermos sorte alguém se lembrará de nós com saudade. De mim ficarão os livros. E depois? Tolstoi, no seu diário: sou o melhor; e depois? E depois nada porque a fama é nada.

O que é muito mais do que nada são estas criaturas feridas, a recordação profundamente lancinante de uma peruca de mulher num braço de cadeira. Se eu estivesse ali sozinho, sem ninguém a ver-me, acariciava uma daquelas madeixas horas sem fim. No termo das sessões de quimioterapia as pessoas vão-se embora. Ao desaparecerem na porta penso: o que farão agora? E apetece-me ir com eles, impedir que lhes façam mal:

– Abrace-me porque talvez não seja o último abraço que me dá.

Ao M. foi. E pode afigurar-se estranho mas ainda o trago na pele. Durante quanto tempo vou ficar com ele tatuado? O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria onde a dignidade dos escravos da doença os transforma em gigantes, onde só existem, nas palavras do Luís, Heróis.

Onde só existem Heróis. Não estou doente agora. Não sei se voltarei a estar. Se voltar a estar, embora não chegue aos calcanhares de herói algum, espero comportar-me como um homem. Oxalá o consiga. Como escreveu Torga o destino destina mas o resto é comigo. E é. Muito boa tarde a todos e as melhoras: é assim que se despedem no Serviço de Oncologia. Muito boa tarde a todos e até já, mesmo que seja o último abraço que damos.

Ler mais: http://visao.sapo.pt/o-ultimo-abraco-que-me-das=f761252#ixzz2nLhD46R2

É impressão minha…

ou estes “jornais” assumem que usam boatos nos artigos?

 

Ronaldo não gostou e processou as duas publicações por devassa da vida privada. Os arguidos invocaram a nulidade da acusação, alegando que teriam revelado “tão só pretensos factos que seriam só pretensamente atinentes à vida privada” do futebolista, e não “factos que pertencem realmente ao domínio da reserva da vida privada e familiar”.”

in Público