Sempre que leio as noticias lembro-me deste Garfield…

Sempre que leio as noticias lembro-me deste Garfield…

Poesia a sobremesa da nossa Literatura.
Se precisar de um bocadinho de açúcar na Língua Mãe, prefiro-o assim, tomado em pequenas doses, com musicalidade lusa.
“Quando for grande quero ser avó
Quero ter olhos de céu às vezes
Tocar piano, falar gato e falar riso
Dançar descalça e feliz dos pés
Ser linda de palavras e cantigas
Segredo do mar e de gaivotas
Quero voar azul como um menino
Que assobia ou dorme ou voa
Quero a certeza de flores e dias
Longe como um sol vermelho
Ou países ou amor sincero
Quando eu for grande quero ser pequena”
Nuno Camarneiro
Não resisti e roubei, com o conhecimento do autor claro, este poema que adorei.

Pois….

Quando cheguei à Universidade, o meu Professor de História da Arte deu-nos um livro para ler ” A Forma do Tempo – Observações sobre a História dos Objectos” de George Kubler, na altura não lhe prestei grande atenção, era o primeiro trabalho, tinha que ler para fazer uma recensão critica, as novidades eram tantas e a tantos níveis, que esta passara despercebida. Tive uma nota razoável, 15 julgo, no entanto o livro foi lido e esquecido na prateleira nos anos que se seguiram.
Os meus estudos universitários foram um carrossel de acontecimentos, que começam hoje em dia a tomar forma, demasiada informação e agitação para conseguir processar tanta mudança.
Há alguns meses a vida mostrou-me um cartão vermelho, fez-me parar, repensar, ver o caminho em que seguia e como estava na direcção oposta aos meus desejos, estava a deixar-me ir em vez de dominar o meu próprio destino.
Entrei num processo de auto-analise e conhecimento, entendi que tinha de me perdoar a mim mesma e que perdoar não era nada mais do que perder a esperança de mudar o passado, foi um processo doloroso, muita lágrima, muito choro, mas com a dor veio a percepção de mim mesma, veio a paz, a aceitação e a confiança.
Desde então todas as peças se têm encaixado no puzzle, o caminho tem agora uma direcção, sei o objectivo final, a estrada se encarregará de me colocar na direcção correcta, deixei de ter medo das encruzilhadas, deixei de querer prever todos os passos.
Curiosamente estou de volta à “Forma do Tempo”, livro que tenho de voltar a reler ( nunca mais lhe toquei desde 1996), frases e passagens, que não me lembro de ter lido, aparecem-me agora nos pensamentos, bem arrumadas na caixinha e a fazer muito sentido.
“A forma do Tempo” ensinou-me também que as coisas importantes ficam, mesmo que na altura não lhes tenhamos dado a devida atenção. O meu obrigada ao George Kubler e ao Professor José Alberto Gomes Machado, este último que me ensinou tantas coisas daquelas que não cabem numa sala de aula e ficam coladinhas a nós para a vida, mas sobre isso escreverei noutra altura.

Não é justo!!!!!!! 🙁
Não deve ser fácil, artistas então….
Alguns músicos defendem que deveriam existir bairros só para músicos, apenas para não existir a lei do silêncio, cada um poder tocar e cantar à hora que bem entende. Claro está que um músico não acorda, nem se incomoda se o vizinho de baixo quiser tocar trompete às três da manhã, já um “comum mortal” é outra história.
Apesar de a ideia me fascinar por um lado, sempre a relutei, trabalhar com músicos e viver rodeada por eles provoca-me aborrecimento, acabamos sempre a falar dos mesmos temas, quer queiramos que não. Esta ideia de um edifício só de artistas dá-me arrepios, seria um pesadelo, só funcionaria se vivesse em espirito de reclusão e mesmo assim….
Este edificio existe no norte de Paris.
Toques de Deus: Um convento de artistas?: “Mas, voltando aos artistas, não sabia sequer que eles vivessem e trabalhassem juntos. Pelos vistos, sim. Na zona limítrofe a norte da cidade, podemos encontrar um edifício dos anos vinte projectado arquitecto Adolphe Thiers com a intenção de alojar e oferecer um lugar de trabalho para (imagem só!) cento e oitenta artistas. E estão lá para todos os gostos: cineastas, escritores, ilustradores, músicos, pintores, fotógrafos e escultores. Não deve ser fácil, viver no meio destes doidos. Para alguns visitantes aquela tarde, parecia um sábado passado no jardim zoológico na zona de Sete Rios: seres raros, alguns em vias de extinção, enjaulados em cubículos e que faziam malabarismos. Para mim, e desculpem-me lá a imagem talvez viciada, pareceu-me um convento de artistas. A clausura delimitada por cada cubículo em formato mezzanine com o atelier e o respectivo quarto. Os espaços comuns marcados pelas varandas, pelos pátios e pelas salas de exposições. Para além disso, eles falam pouco. Gentilmente, muito gentilmente, abriram as portas mas não têm paciência – e eu também não teria – para tornar devasso aquele espaço. “
Com a situação nacional a degradar-se a cada dia que passa, é normal manter as perspectivas abertas e olhar para o que se passa lá fora. Fui investigar.
– Factor muito positivo, tal como em Portugal, a procura de Professores de Música é elevada na Europa, muito elevada nos Estados Unidos e até encontrei vagas no Kuweit ( por muito que goste de calor, um pais do Médio Oriente só quando chegar a “Primavera”).
– Factor ainda mais positivo, em Inglaterra encontramos salários de 90 a 161 libras por dia negociáveis, entre outros que rodam sempre estes valores, fazendo as contas ao que ganho por dia aqui no rectângulo, à imposição do Acordo Ortográfico e outras coisas que já sabemos e outras que ainda não, dá que pensar…eu sempre simpatizei com a Rainha e o Carlinhos, gosto de chá e compota de laranja…o tempo é que é mais aborrecido, porque sou menina dada ao calor, gosto muito do solinho.
Por outro lado se sairmos todos daqui, o que vai acontecer a este país?
Por estas e por outras é que Yo-Yo Ma é o meu músico “vivo” preferido, cantores não incluídos.
Uma generosidade, humildade e paixão pela música vistos menos vezes do que se desejaria.