Acabou-se o Verão

Foto: MT

Infelizmente acabou-se o Verão…venham então, o cheiro da terra molhada e as tardes de domingo, chuvosas, na companhia de um bom livro. Os passeios pela praia vazia e o som das marés vivas.
Do Verão restam as saudades do sol quente e do calor… Para o ano há mais!

“O Passado. Do fundo do tempo, aparecem pedaços de recordações. Demoram-se um instante, doem-me suavemente e somem-se”
Tudo passa com o tempo, por isso há que encarar a desilusão, a tristeza e a mágoa como memórias futuras distantes que um dia hão de teimar em sumir. E é disso que me convenço, enquanto vou escrevendo estas linhas. De momento estas “sensações” assolam-me, embora as últimas duas sejam arrastadas pela primeira.
As lágrimas caem, o coração fica pequenino, a alma pesa…mas tudo se supera.
Acabaram-se as palavras.

Sons Nocturnos

Escrevo a ouvir os sons bem timbrados da guitarra (viola para os mais puritanos) que me invade o ouvido a estas horas da noite. Sons que descansam bem cá dentro e que invadem, sem pedir autorização, o coração. Demoram-se um bocadinho à entrada do aparelho auditivo, mas penso lhes que entrem, sem precisarem de fazer qualquer tipo de cerimónia.
Um qualquer músico, que até à data desconheço, penso que os senhores da 2 se lembraram de nós, aqueles que começam a ver um programa após o seu início, para nos satisfazerem a curiosidade.
As adaptações que faz a fados conhecidos, como é o caso de “No Teu Poema” de Carlos do Carmo, que é senão o meu fado preferido definitivamente um deles, é no mínimo de cortar a respiração. E no meu caso estas notas cortam-na muito facilmente. É como que manteiga para os ouvidos, descansam-se no meu coração. Relembram-me a letra sem que seja preciso a mente fazer muito esforço.

No Teu Poema”


No teu poema
existe um verso em branco e sem medida,
um corpo que respira, um céu aberto,
janela debruçada para a vida.
No teu poema
existe a dor calada lá no fundo,
o passo da coragem em casa escura
e, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite,
o riso e a voz refeita à luz do dia,
a festa da Senhora da Agonia
e o cansaçodo corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio,
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai
ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
existe o grito e o eco da metralha,
a dor que sei de cor mas não recito
e os sonhos inquietos de quem falha.
No teu poema
existe um cantochão alentejano,
a rua e o pregão de uma varina
e um barco assoprado a todo o pano.
Existe um rio
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai
ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
existe a esperança acesa atrás do muro,
existe tudo o mais que ainda escapa
e um verso em branco à espera de futuro.

E para não estragar, assim vos deixo.
Com a certeza de que vou dormir melhor, que vou meter “o coração a descansar”, que esse bem precisa, e com um sorriso nos lábios.
Durmam bem

O Lago


Foto: MT

A calma que nos transmite o lago não é nada mais que um reflexo das mais pueris recordações que transformam o passado em presente ainda que por breves instantes. Demoram-se um bocadinho e somem-se com a mesma rapidez com que tinham aparecido.
Mas que belas lembranças essas…
Pena que não se demorem mais um bocadinho!

Elizabeth Schwarzkopf


O mundo ficou novamente mais pobre, morreu uma das divas do canto do séc. XX, Elisabeth Schwarzkopf, sem sombra de dúvidas a minha guia no que concerne a Bach e Schubert. É com o coração um tanto ou quanto apertado que escrevo estas linhas.
Morreu um marco da História do Canto Lírico.
Fica aqui o artigo do “Jornal de Noticias” pelo qual soube da morte desta grande e polémica Senhora. Restam-nos os registros fonográficos e televisivos (como os seus famosos workshops que tantas vezes assisti na Mezzo).
Uma enorme salva de palmas para Elisabeth Schwarzkopf.

“Elisabeth Schwarzkopf, tida como umas das principais vozes do século XX, a par de Maria Callas, faleceu ontem na sua casa, em Viena, anunciou a estação pública de televisão austríaca. A soprano tinha 90 anos.Retirada dos palcos desde 1975, Schwarzkopf alimentou uma carreira recheada de êxitos, durante a qual trabalhou com maestros de renome, como Herbert von Karajan, Wilhelm Furtwaengler ou Otto Klemperer. Para a posteridade ficam as suas inigualáveis interpretações de compositores como Strauss, Mozart, Schubert e Wagner.
Nascida em 1915, em Jarocin, na Polónia, Olga Maria Elisabeth Frederike Schwarzkopf mostrou um grande fascínio pela música desde muito nova. Estudou na Berlin Hochschule für Musik e subiu pela primera vez ao palco em 1928, vestindo o papel de Eurydice numa produção de Magdeburgo.
Dez anos depois, juntou-se à Deutsche Oper de Berlín como soprano junior.
A estreia como profissional dá-se dois dias depois, com a interpretação da segunda florista no segundo acto de “Parsifal”, de Wagner.
De então em diante, foi dona de um percurso ascendente, como o comprovam os seus numerosos discos. Actuou na Royal Opera House de Londres, subindo ao palco no papel de Dona Elvira, na ópera “Don Giovanni”.
Foi a Condessa, em “As Bodas de Fígaro” e em “Capriccio”, Marschallin em “Der Rosenkavalier” ou Alice Ford em “Falstaff”.
Casada com Walter Legge, produtor inglês e “caçador de vozes” como a de Maria Callas e de Victoria de Los Angeles, a soprano de origem alemã adquiriu a nacionalidade britânica.
Com a morte do marido, Schwarzkopf retira-se em definitivo dos palcos, pois “não fazia mais do que reflectir a luz dele”, disse.

Ligações perigosas
Em 1996, a incólume carreira da soprano é manchada por uma biografia de Alan Jefferson, onde o autor sugere que o sucesso da germano-inglesa se devia à sua simpatia pelo regime do III Reich. Schwarzkopf passou a integrar as fileiras do partido nazi em 1940, mas, segundo ela, por obrigação, já que o seu pai havia perdido o emprego por recusar a filiação. Em entrevista a um semanário francês, a soprano foi mais fundo, explicando em detalhe a situação. “O meu pai disse-me não tens nada a ver com política. Tens essa voz, a voz do século. Ocupa-te disso somente”. Mas o “Ney York Times” havia de baptizá-la como “a diva nazi”.

Schwarzkopf viveu na Suíça antes de se mudar para Viena, onde morreu.”

In “Jornal de Noticias” – 2006/08/04

Carlos Paredes

“O Carlos Paredes é um grandalhão com aspecto simplório, mas o que esse bicho faz da guitarra é inacreditável! Nas mãos dele, este instrumento assume uma altura comparável à dos instru­mentos para música de concerto. Nada de trinadinhos à maneira do Armandinho. O exemplo do pai, o Artur Paredes, foi continuado pelo filho mas de uma forma diferente: só ouvido! O fulano consegue abranger duas séries de escalas exactamente como fazem os tocadores do flamengo e os grandes concertistas de guitarra espanhola.”

Zeca Afonso numa carta, dirigida aos seus pais, datada de 23 de Maio de 1964.

Fica aqui a minha singela homenagem, a este grande guitarrista,por altura do segundo aniversário da sua morte.

Hora da Despedida!

Foto: MT

Chegou a altura de te dizer adeus, digo-o assim cruamente porque o sinto. Chegou a altura de dar um passo em frente, de deixar de estar agarrada permanentemente à tua imagem, uma imagem que com o passar do tempo deixou de ter falhas.
É confuso este sentimento de não precisar mais de ti, é um sentimento de liberdade por um lado, mas por outro dá-me a sensação que, algures no meio do processo, amadureci. A tua lembrança ficará para sempre gravada na minha memória, jamais te esquecerei. Não tenho necessidade, no entanto, de te trazer agarrado a mim, todos os dias, todas as horas, sempre presente no meu pensamento. Perguntas porquê? Pois também não sei…talvez porque o tempo realmente cure todas as feridas, mesmo as mais profundas, como a que me deixaste. Talvez porque estou preste a fechar mais um ciclo da minha vida e porque sinto que não fazes parte do que se vai iniciar, talvez porque te sinta, não te ofendas com o que te vou dizer, como que um grilhão agarrado à minha perna e que não me deixa prosseguir, ou simplesmente porque deixei de sentir que a tua presença era essencial para a minha vida. Talvez porque seja a lei natural das coisas, na realidade material há doze anos que deixaste de fazer parte da minha vida, no entanto na imaterial não dei por isso, mas faz muito pouco tempo talvez um mês se tanto, reparei hoje que não “falei” contigo nestes últimos dias ou semanas ou meses quem sabe…digo – te Adeus hoje como nunca fui capaz de o fazer nestes anos todos, digo – te Adeus não com dor mas com o carinho e saudade que te são devidos, digo – te Adeus numa sentida homenagem a um ser humano estupendo que marcou, para todo o sempre, a minha vida.
Digo-te Adeus na esperança de um dia te poder voltar a dizer Olá.

Alma Perdida

Alma perdida,
Corpo dormente
Sorriem os meus olhos
A toda a gente
Começa o silêncio…
Saem-me mudas as palavras
Falha -me a voz
Fechei-me
Não quero sentir mais nada!

Procuro palavras
Que digam
Que estou aqui
No entanto elas só dizem
O que não quis

MT

Ligeti

Morreu György Ligeti.

Fica aqui o meu testemunho sobre a vida de um grande compositor, um dos que mais admiro.

György Ligeti nasceu a 28 de Maio de 1923 em Dicsöszentmárton, que actualmente se chama Tirnaveni, uma pequena cidade na Transilvânia que pertence à Roménia desde 1920.
A família do compositor era judaica húngara, facto que o vai marcar durante a II Guerra Mundial.
Com a mudança de residência, para Koloszvar, abrem-se as portas da cultura para o jovem György, começa a frequentar o meio musical da cidade.
Chegada a fase de optar por uma via profissional, Ligeti, vê-se no meio de um impasse, em que seria o destino a fazer a opção por ele, seguiria Música ou Física? No entanto a presença Nazi na Roménia iria ser decisiva, apenas existia uma vaga para Física para alunos judeus e Ligeti não a conseguiu. Não obstante quem conhece a obra de Ligeti percebe perfeitamente que a paixão pela Física manteve-se ao longo da sua carreira, irá utilizar sistematicamente recursividade, fractais, a teoria do caos e outros conceitos físico-matemáticos.
Em 1944 o Nazismo volta a fazer das suas ao jovem Ligeti, e este tem de servir o exército bem pertinho do final da II Grande Guerra, enquanto a sua família era levada para os campos de concentração de Bergen-Belsen e Mauthausen, onde viriam a falecer o pai (violetista) e o irmão (violinista), embora a sua mãe consiga sobreviver em Auschwitz.
Naturalmente, estes anos marcaram imenso o compositor que sendo de trato bastante afável dizia que transportava em si “um ódio imenso”. Um sentimento que aumentará com a ditadura comunista, da década de 50, e que se vê expressa em obras como o Requiem de 1965.
Sob o governo de András Hegedüs, a Hungria passa pela “restalinização”, sob o signo da colectivização compulsória e do terror da polícia secreta.
À semelhança do Nazismo, o regime comunista condena a Música Moderna, e Ligeti torna-se então persona non grata para o partido, ao apresentar uma música de Stravinsky aos seus alunos.
Ao ouvir na rádio Gesang der Jünglingen de Karlheinz Stockhausen, esta fá-lo descobrir um mundo de possibilidades musicais para além da Cortina de Ferro, ao mesmo tempo que lhe confirmava o exílio em que ia vivendo.
A frustração após o fracasso da revolução anti-soviética de 1956, que se juntou ao sufoco intelectual e pessoal faz com que Ligeti fugisse para a Áustria.
Pouco depois é convidado a trabalhar com Stockhausen, Eimert, Luciano Berio, Luigi Nono e Pierre Boulez entre muitos.
Ligeti fez parte da nata da música moderna europeia e ombreou entre os primeiros.

Segundo Augusto Valente:

“Um dos enigmas do homem György Ligeti é sua capacidade de evoluir sempre, porém mantendo-se fiel às suas paixões originais. Pois o interesse por mundos artificiais já se manifestara na infância, quando ele inventou Kylwiria, um reino imaginário, com um mapa, língua e história próprias.
Ainda adolescente, a caminho da aula de piano, Ligeti imaginava uma música estática, porém sempre em movimento. Um ideal que ele reencontrará nas obras medievais e que perseguirá de diversas formas em suas próprias composições. Certa vez, ele comparou a música a alguém que contempla o mar através de uma janela. O que o compositor faz é abrir essa janela. Quando ela é fechada, a música continua lá. Uma nobre utopia, da qual esse compositor pan-europeu consegue se aproximar como ninguém.”


Ligeti morreu ontem, Viva Ligeti!