Juro-vos que isto não me sai da cabeça

Neste caso, a espingarda oferecida a Kristian é o modelo My First Rifle (a minha primeira espingarda), fabricado pela empresa Crickett.Trata-se de um modelo feito especialmente para crianças, disponível em várias cores, e muito popular em alguns estados norte-americanos.” In Público.

Será que eles por lá já conhecem as pistolas de brincar? Por muitas voltas que dê não consigo conceber a imagem de uma pessoa sã mentalmente a dar uma pistola “de verdade” a uma criança, quanto mais uma criança de 5 anos, ainda mais com munição dentro. Não consigo, isto anda a perturbar-me o espirito. Ainda mais quando se lê no dito artigo o seguinte ““Nesta zona do país, não é invulgar uma criança de cinco anos ter uma arma ou um pai passar a sua ao seu filho””, só pode estar tudo louco.

Morrerem tão poucos é um milagre e quase nos faz acreditar numa força do universo que protege as crianças daquele país.

Esterilizar um país inteiro é proibido não é? Podemos então fazer um muro à volta?Ninguém entra nem saí, ficam lá eles sozinhos, assim como assim não vão dar pela nossa falta, desde que tenham o seu país tão fantástico e “extra-ordinário”. O resto do mundo é paisagem para eles portanto. 

Juro-vos que não entendo….e isto faz-me uma confusão diabólica. E isto faz-me ter muito medo daquelas pessoas e do futuro daquela gente.


A menina triste da Si-o-Seh Pol por Filipe Morato Gomes

“Com a moeda desvalorizada e uma inflação galopante (alguns preços duplicaram no espaço de um ano), muitas famílias iranianas estão em sérias dificuldade. A crise parece ter chegado ao Irão.

Tenho visto homens a remexer no lixo à procura de comida e mais pedintes que o habitual nas várias cidades por onde tenho passado. Mas foi um encontro com uma criança que mais me marou.

Era noite. Atravessava a ponte Si-o-Seh, em Esfahan, quando me tocaram na perna. Era uma menina de olhar triste, não teria mais que 5 anos, e trazia nas mãos algo para vender. Talvez fossem lenços ou pensos, seguramente algo de pouco valor. Os pais estariam nas proximidades, mas não os consegui ver.

Baixei-me e disse que não suavemente, ela insistiu impávida e serena, pronunciando apenas uma palavra em farsi que não entendi; voltei a dizer que não. Repetimos este diálogo várias vezes, calmamente, como se estivéssemos a testar a paciência um do outro.

Frente a frente, de cócoras para que ficássemos cara a cara e a olhasse sem ser de cima para baixo, só me lembrava da minha filha.

Ela não desistia.

Levantei-me e comecei a caminhar. A menina deu uns passos de petiza e colocou-se de novo à minha frente. Estava decidida. E triste. Fosse um adulto e teria levado um encontrão. Mas era uma menina da idade da minha filha.

De novo me baixei e recomeçamos o diálogo da paciência. Por 3 ou 4 vezes repetimos esta “luta”: ela queria vender, eu queria ajudá-la a simplesmente ser criança.

É um dilema antigo. Tinha vontade de comprar tudo o que a menina trazia na mão para que ela pudesse ir para casa brincar, dormir ou simplesmente sorrir. Mas fazê-lo seria contribuir para que nas próximas noites ela fosse de novo impelida para as ruas pelos seus pais. Por mais contraditório que possa parecer, a melhor forma de a ajudar era não ceder. Não comprar. Para que nas próximas noites pudesse ficar em casa a brincar, a dormir, a ser, enfim, uma menina de 5 anos.

Depois de alguns minutos que pareceram uma eternidade, a menina dirigiu-se por uns segundos a outras pessoas que passaram ao nosso lado. Aproveitei a “distração” e continuei a caminhar. Olhei para trás e “vi” a minha filha a vender lenços ou pensos aos transeuntes da Si-o-Seh Pol.

E não contive uma lágrima de tristeza, de raiva, de desespero.”

Filipe Morato Gomes