“É tão depressa noite neste bairro”

O dia, quando chego a casa, passa depressa demais, já chegou a noite e a promessa de um novo dia por escrever, mas “é tão depressa noite neste bairro”, apetecia-me ficar só mais um bocadinho….

 

“Poema QuotidianoÉ tão depressa noite neste bairro 
Nenhum outro porém senhor administrador 
goza de tão eficiente serviço de sol 
Ainda não há muito ele parecia 
domiciliado e residente ao fim da rua 
O senhor não calcula todo o dia 
que festa de luz proporcionou a todos 
Nunca vi e já tenho os meus anos 
lavar a gente as mãos no sol como hoje 
Donas de casa vieram encher de sol 
cântaros alguidares e mais vasos domésticos 
Nunca em tantos pés 
assim humildemente brilhou 
Orientou diz-se até os olhos das crianças 
para a escola e pôs reflexos novos 
nas míseras vidraças lá do fundo 

Há quem diga que o sol foi longe demais 
Algum dos pobres desta freguesia 
apanhou-o na faca misturou-o no pão 
Chegaram a tratá-lo por vizinho 
Por este andar… Foi uma autêntica loucura 
O astro-rei tornado acessível a todos 
ele que ninguém habitualmente saudava 
Sempre o mesmo indiferente 
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados 
Íamos vínhamos entrávamos não víamos 
aquela persistência rubra. Ousaria 
alguém deixar um só daqueles raios 
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas? 

Mas hoje o sol 
morreu como qualquer de nós 
Ficou tão triste a gente destes sítios 
Nunca foi tão depressa noite neste bairro 

Ruy Belo, in “Aquele Grande Rio Eufrates” “

O Dan Brown de trazer por casa….

“A ficção de Rodrigues dos Santos, com todo o respeito que me merece o jornalista e meu parcialmente conterrâneo, concita-me tanto interesse como a caça aos gambuzinos. Isto porque, para mim, há uma espessa incomparabilidade entre, por exemplo, o meu adorado, fabuloso e intrincado Umberto Eco e o nosso humilde e comercial Dan Brown português como entre Hegel e a revista Caras.”

in PALAVROSSAVRVS REX

Não fui eu que escrevi mas subscrevo.

“Stowaways” – Lawrence Sails

Stowaways

“Blind passengers, reduced
to pure anxiety, their spirits
rise and fall with each lift
and plunge of the butting hull:
bracing themselves, they test
the strength of their old visions.

Some, discovered after food
has gone missing from the galley,
or given away by a whiff
of tobacco seeping through a bulkhead,
are simply tipped overboard
as if they were so much trash.

Others, airborne, are undone
by cold – cold which unpicks,
finger by numbed finger,
their hold on a strut, slides them,
helpless, out from the wheelbay
into a shroud of thin air.

Falling through cloud or water,
perhaps their last recall
is the iron taste of blood,
the danger of not leaving,
or the far horizon bright
and burnished as New Jerusalem.

What is certain becomes so
only late on, when the stowaways
re-emerge, insistent phantoms,
at the point where memory rounds
on experience, and well within sight
of the dark relief of land.”

Este poema faz parte do livro “Waking Dreams: New & Selected Poems (Bloodaxe Books, 2010) de Lawrence Sails.

Faz-me revisitar sonhos de criança, aventuras em lugares longínquos.