PARODIA AO PRIMEIRO CANTO DOS LUSIADAS DE CAMÕES POR QUATRO ESTUDANTES DE EVORA EM 1589.

Évora será sempre Évora e o espirito não muda nem com 500 anos em cima.

Via Projecto Gutenberg.

PARODIA AO PRIMEIRO CANTO DOS LUSIADAS DE CAMÕES POR QUATRO ESTUDANTES DE EVORA EM 1589.

LISBOA.
NA TYPOGRAPHIA DE G. M. MARTINS.
Rua do Ferregial de Baixo, 22.
1880.

As honras da parodia só ás obras do genio costumam conceder-se. A divina Iliada foi parodiada em um poema heroi-comico tão antigo, que geralmente se attribue ao proprio Homero; ainda que Suidas lhe dá por auctor a Pigres, irmão da Rainha Artemisa. N’esse poema, intitulado a Batrachomyomachia, a terrivel lucta dos Gregos e Troianos é reproduzida no maravilhoso combate dos ratos e das rãs. Esta corôa burlesca ainda faltava ao rival de Homero, quando o poeta Scarron primeiro marido da famigerada Marqueza de Maintenon, se lembrou de cantar:

    …… cet homme pieux,
Qui vint chargé de tous se Dieux
Et de Monsieur son père Anchise,
Beau vieillard à la barbe grise, etc.

A grande obra do unico homem de genio que talvez tenha produzido a nossa terra, não podia isentar-se d’este fado inherente ás grandes celebridades. Eram apenas passados dezoito annos depois da publicação dos Lusiadas—ainda a reputação de Camões não estava consagrada pelos seculos, quando alguns homens engenhosos comprehenderam que aquella obra immortal era uma d’aquellas a que a parodia era devida. O resultado de seus trabalhos não é de certo para comparar com nenhuma das espirituosas producções que ficam mencionadas; mas ainda assim não é esta inteiramente destituida de merecimento. Francisco Soares Toscano, bem conhecido dos litteratos pelo seu Parallelo de Principes, escreveu uma interessante noticia sobre esta obra, em que nos conta o curioso modo por que ella foi composta. Quatro estudantes da Universidade d’Evora costumavam sair a passear, ás tardes, aos arrabaldes da cidade, levando comsígo os Lusiadas. Chegados a um verde ferrageal, sentavam-se a uma fresca sombra, e se abria a sessão parodiadora. Assim como a engelhada e disforme mascara de uma velha megéra cobre o rosto radiante de formosura de uma elegante Coquette, para mais fazer realçar seus encantos, quando deixe cair aquelle hediondo disfarce; assim o immortal poema devia ser desfigurado por aquelles travessos estudantes. Os Gamas, Castros e Albuquerques tinham de ceder seu logar aos Catigelas, Lunas e Barbanças, barões sem duvida tão assignalados nos combates de Baccho como ess’outros nos de Marte.

Dois mezes durava aquella sessão extraordinaria; e já tão continuados passeios davam que fallar aos estudantes e tambem dariam que entender á Santa Inquisição d’Evora, se aquella sociedade secreta não fosse composta, como de facto o era, de quatro theologos, e tão orthodoxos, que um d’elles veio a ser Inquisidor Geral. Mas por fim appareceu a mysteriosa obra dos quatro patuscos, como hoje lhe chamaria um academico, e não sei se já então lhe chamavam. A este modo de composição de sociedade e ás muitas emendas que depois soffreu dos curiosos, como adverte Toscano, se deve talvez a confusão do enredo d’este poema. Parece que seus collaboradores tinham principalmente em vista inverter ao de-vinho cada verso que entrava em discussão, sem attender á coherencia do todo. É provavel que se propozessem a celebrar os mais famosos bebedores Evorenses, aos quaes alludissem, e talvez nomeassem por seus proprios nomes ou apellidos. Toscano, que os devia conhecer, assim o indica quando diz que tinha feito varias cotas a esta parodia para melhor se entender. Com effeito na est. XXX se faz menção de um Pero Vaz, que provavelmente é o mesmo christão-novo, bebado perdido, auctor do epigramma latino de que falla a noticia. Infelizmente para a historia daBorracheologia Lusitana, cotas e epigramma tudo se perdeu.

Os collaboradores d’esta innocente profanação litteraria não são inteiramente desconhecidos. Manoel do Valle de Moura, natural de Arrayolos no Alemtejo, doutorou-se em Theologia na Universidade d’Evora, e chegou a ser Arcebispo d’esta diocese e Inquisidor geral. Contava vinte e cinco annos quando concorria para esta composição, e chegou a uma avançada idade. Além da obra De Encantationibus et Ensalmis, de que falla Toscano, e outras de não menor utilidade, Barboza o faz auctor de uma Illustração á primeira Ode de Camões. De certo não fez pouco Sua Rev.^{ma} se conseguiu lançar alguma luz sobre aquelle confuso ou estropeado poema. Nem Bartholomeu Varella, nem o Licenciado Manoel Luiz, tiveram a honra de encher as columnas da Bibliotheca Lusitana; mas João Baptista de Castro de ambos faz menção no seu Mappa de Portugal. Não é comtudo a Varella, como elle pensa, que cabem os louvores que lhe dá por esta composição burlesca. Manoel Luiz Freire—que assim lhe chama um Padre Francisco da Cruz, citado por Castro,—se deve ter como o principal e mais chistoso collaborador desta obra. As unicas noticias biographicas que d’elle sabemos, são as apontadas por Toscano em sua noticia. O quarto dos theologos, e ao que parece o mais theologo de todos, foi o pobre Luiz Mendes de Vasconcellos, cujo ronceiro estro só lhe pôde inspirar um unico verso. Não se confunda este obscuro individuo com o auctor do Sitio de Lisboa e da Arte militar, supposto fossem contemporaneos. Um dedicou-se á Egreja, o outro ás armas.

Esta parodia chegou a alcançar certa celebridade, ainda que até agora nunca fosse impressa. Eis-aqui o que d’ella diz Faria e Souza, fallando de outra de um soneto de Garcilasso, attribuida a Camões: «Lo que mi poeta hizo conquel soneto de Garcilasso, pasándose de tanta gravedad a tanta picardia, hizo otro ingenio Portuguez con el canto 1.^o de su Lusiada, intitulándole Borrachera; porque celebra en él á algunos aficionados del vino; y las mas de las otavas son bueltas á este proposito con gran felicidad.» E depois de dar como amostra os quatros primeiros versos da 1.^a oitava, prosegue: «El canto 2.^o continuó (y no con menos felicidad) Antonio de Magallanes y Menezes, señor de la Ponte da Barca, que este ano de 1645, aqui en Madrid, me referió algunas estancias. Yo, quando en mi mocedad atendia á esto, bolvi tambien algunas, de que se me acuerdan los primeros quatro versos de la 90 del canto 5.^o, que son:

Da boca de facundo capitão, &c.

y mi rebuelta dice deste modo:

Da boca do fecundo borrachão
Pendendo estavam todos bem bebidos,
Quando deu fim a grande inundação
Dos altos copos grandes e subidos!»

(Comment. ás Rim. Tom. 1.^o pag. 354).

FESTAS BACCHANAES:

CONVERSÃO DO PRIMEIRO CANTO DOS LUSIADAS DO GRANDE LUIZ DE CAMÕES VERTIDOS DO HUMANO EM O DE-VINHO POR UNS CAPRICHOSOS AUCTORES: S.
O DR. MANOEL DO VALLE, BARTHOLOMEU VARELLA, LUIZ MENDES DE VASCONCELLOS, E O LICENCIADO MANOEL LUIZ, NO ANNO DE 1589.

* * * * *

NOTICIA.

Esta obra da conversão do primeiro canto do poema de Luiz de Camões se fez no anno de 1589, para a qual concorreram quatro pessoas, a saber: o Dr. Manoel do Valle, deputado da Santa Inquisição, que compôz o livro dos Ensalmos em latim, que agora imprimiu: outro foi Bartholomeu Varella, natural de Vianna, junto a Evora, o qual falleceu, que era irmão de Diogo Pereira, que foi este anno ás Côrtes, que El-rei D. Filippe II fez em Lisboa, por Procurador d’esta cidade de Evora. Foi Bartholomeu Varella clerigo e grandissimo poeta. O terceiro foi Luiz Mendes de Vasconcellos, criado do Arcebispo D. Theotonio; o qual posto que não era poeta, se achou ao fazer da obra; e só fez um verso, que é o ultimo da oitava 17; porque estando elles suspensos no cuidado de completarem a dita oitava e parados no verso que diz:

Porque este é o que aguenta a velha idade, acudiu o dito Luiz Mendes, concluindo:

Desterrando a agua-pé d’esta cidade.

O quarto e principal auctor foi o Licenciado Manoel Luiz, Bacharel; e este anno de 1619 vive com o Priorado de Terena. Este foi o promovedor d’esta obra, e a fez quasi toda, ou o melhor d’ella.

Quando a fizeram eram então todos theologos; e ás tardes, acabado o estudo, sahiam pela porta de Machede, e assentados em um ferrageal, iam traduzindo para a bebedice as taes oitavas de Camões, fingindo uma embarcação de Lisboa para Evora, como Camões a de Portugal para a India Oriental; e compozeram a tal obra dentro em dois mezes, no cabo dos quaes sahiram com ella: sendo que já os estudantes suspeitavam de alguma applicação (posto que não soubessem de certo o que era) pelos verem ir todas as tardes para fóra dos muros, e communicarem seus papeis, sem darem conta d’isso a ninguem.

Finalmente, sahida a obra, foi muito festejada e estimada de todos; e lendo-a o Padre Ferrer, castelhano (varão doutissimo da Companhia, do qual o Dr. Manoel do Valle traz uma carta no seu livro) e fallando-se n’ella, costumava dizer, que era a melhor obra que nunca sahira nem elle vira, se não fosse tão suja.

Depois, como se divulgou, cada um a quiz emendar como entendia, d’onde vem andarem hoje as copias com tanta diversidade de leituras. Porém eu, esta que aqui vae, a trasladei do proprio original e letra de Bartholomeu Varella, que está em poder do Chantre da Sé d’esta cidade, Manoel Severim de Faria, que a houve do dito Varella, e lhe fiz algumas cotas para intelligencia da obra.

Isto me parece basta para se saber o como esta obra se fez. E eu Francisco Soares Toscano o fiz aos 10 de Janeiro de 1619.

FESTAS BACCHANAES.

ARGUMENTO.

Fazem concilio os bebados de porte,
Oppõe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;
Favorece-os o Catigela forte,
No Lamarosa tem seu lava-dente.
De inveja Lyeo lhes busca a morte,
Descendo a Monte-mór contra esta gente,
Que vê em rio Mourinho a acção traidora,
E a Peramanca chega vencedora
.

I.

Borrachas, borrachões assignalados,
Que de Alcochete junto a Villa Franca,
Por mares nunca d’antes navegados
Passaram inda além de Peramanca:
Em pagodes, e ceias esforçados,
Mais do que se permitte a gente branca,
Em Evora cidade se alojaram,
Onde pipas e quartos despejaram:

II.

Tambem as bebedices mui famosas
D’aquelles que andaram esgotando
O imperio de Baccho, e as saborosas
Agoas do bom Louredo devastando;
E os que por bebedices valerosas
Se vão das leis do reino libertando;
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar Baccho, e não Marte.

III.

Cessem do Novellão, do gran Barbança
As grandes bebedices que fizeram;
Cale-se do Rangel e do Carrança
A multidão dos vinhos que beberam,
Que eu canto d’outra gente e d’outra lança,
A quem frascos de vinho obedeceram:
Cesse tudo o que a musa antiga canta,
Que outro beber mais alto se alevanta.

IV.

E vós, bacchanaes nymphas, pois creado
Em mim tendes a sêde tão ardente,
Se sempre em largo copo espraiado
Festejei vosso vinho alegremente,
Dae-me agora um bom papo despejado
Para beber á perda co’esta gente,
Porque de vossas agoas Baccho ordene
Um rio para bebados perenne.

V.

Dae-me uma vasilha mui cheirosa,
Seja de bom licor, não saiba a arruda,
De Peramanca seja que é gostosa,
O peito esforça, a côr ao gesto muda;
Dae-me igual nome ás tassas da famosa
Gente vossa que Baccho tanto ajuda;
Que se espalhe, e se cante no universo,
Se tanta bebedice cabe em verso.

VI.

E vós, Fernan Gonçalves, segurança
Das festas de Lyeo em esta idade,
Podeis atravessar com confiança
Quantas adegas ha n’esta cidade:
Vós, mano, nosso amor, nossa esperança,
A quem só promettemos lealdade,
Pois Baccho a nós vos deu por cousa grande,
Seja a medida assim de quem a mande.

VII.

Vós só tendes o ramo florescente
Da arvore de Cybele mais amada,
Que nenhuma nascida em Benavente
Ou pelo rio abaixo até Almada.
Vêde-o nas toalhas, que presente
Vos mostra a bebedice já passada,
Nas quaes vivas lembranças vos deixou
O que de vinho mais se carregou.

VIII.

Vós, alto taverneiro, cujo imperio
O bebado em se erguendo vê primeiro,
Ou beba n’este nosso hemisferio,
Ou beba lá n’esse outro derradeiro:
E nem por isso sente vituperio
O fidalgo, o estudante, o cavalleiro,
Antes o Turco, o Mouro, e o Gentio
Lhes pêza não beber do vosso rio:

IX.

Inclinae por um pouco a magestade,
Que no azamboado rosto vos contemplo,
Quando fordes c’os mais d’esta cidade
Offertar-vos a Baccho no seu templo:
Os olhos da real bebecidade
Ponde no borrachão, vereis exemplo
De amor de vossos vinhos saborosos
Por bebados louvados espantosos.

X.

Então vereis se sois bem conhecido
De todos os amigos de Falerno;
Que não é pouco ser obedecido
No estio, primavera, outono, inverno:
Ouvi, vereis o nome engrandecido
D’aquelles de quem sois senhor superno;
E julgareis qual é mais excellente
Se ser do mundo rei, se de tal gente.

XI.

Ouvi, que não vereis com vãs façanhas
Fantasticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
Bebedices dos vossos são tamanhas,
Que excedem as sonhadas fabulosas,
Que excedem ao primeiro vinhateiro,
E a Baccho inda que fôra verdadeiro.

XII.

Por estes vos darei um Claudio fero,
Que fez a Peramanca tal serviço,
Um fulano Coutinho, que de mero
A borracha para elle só cubiço.
Pois pelos doze Pares dar-vos quero
Uns doze que sobre um pobre chouriço
Entornaram tão rijo que de cama
Um monte lhes serviu d’esterco e lama.

XIII.

E se a troco de Nun’alvres e Barbança
Ou do Luna quereis igual memoria,
Vêde primeiro a Pedro, cuja lança
No beber escurece qualquer gloria;
E aquelle que do enxame a segurança
No copo só quiz ter, por ter victoria;
Aquelle Diogo, invicto cavalleiro,
Que em quatro não é quarto, mas primeiro.

XIV.

Nem deixarão meus versos esquecidos
Aquelles que na sêde gastadora
Se fizeram no copo tão subidos,
De Lyeo a bandeira vencedora:
Um Daniel fortissimo e os temidos
Lacaios, por quem sei que sempre chora
Da Chamusca e Louredo o vinho forte,
E outros a quem Thetis causa a morte.

XV.

Em quanto a estes canto, e a vós não posso,
Bom Fernando, que não me atrevo a tanto,
Essa mão alargae ao vinho vosso,
Dareis materia a nunca ouvido canto.
Começarão a fugir d’agoa do poço
Os que em vêl-a sómente tem espanto,
Que em pagodes, merendas e jantares
Empinar querem só de Baccho os mares.

XVI.

Em vós os olhos tem o Mouro frio,
Frio, que usar de vós lhe não é dado;
Pelo contrario o barbaro gentio
Com desejo de ver-vos ‘stá squentado;
Peramanca o vermelho senhorio
Vos tem s’enviuvaes apparelhado;
Que pois em dar seus bens sois brando e tenro,
Deseja de comprar-vos para genro.

XVII.

De Castella se veem n’essa morada
Agoas de duas côres deleitosas,
Quando a nossa cidade está esgotada,
Inda que o gesso as faz menos gostosas;
C’o licor novo espera ser tirada
A reima das entranhas sequiosas,
Porque esse é o que aquenta a velha idade
Desterrando a agoa-pé d’esta cidade.

XVIII.

Mas em quanto com novo não me alento,
Reparti com os pobres que o desejam;
Ide largando d’elle, com intento
Que seus poucos reales vossos sejam.
Assi recolhereis o nosso argento,
E de todos aquelles que festejam
Por tal ordem a Baccho celebrado,
Que costumam beber cada bocado.

XIX.

Já de lá d’Alcochete caminhavam,
As fermosas borrachas apertando,
E depois de vasias as largavam,
Outras d’outro licor melhor tomando,
De branca escuma os copos se mostravam
Cubertos ao beber não lhe assoprando;
Mas as agoas nem doces, nem salgadas
D’ellas vistas não foram nem provadas.

XX.

Quando Francisco, bebado espantoso,
Que em copo, frasco, taça é eminente,
Se ajuntou em conselho, desejoso
De dar favor a toda aquella gente.
Pisando esse caminho tão famoso
Da rua das adegas prestemente,
Convocados da parte do entornante
Por um já n’outro tempo bom tocante.

XXI.

Deixam dos sótãos frios o aposento
Que para beber n’elles lhe foi dado,
Obedecendo logo ao mandamento
De um bebado tão nobre e tão honrado.
Alli se acharam juntos n’um momento
No bairro de Reimonde celebrado,
Os da Porta d’Avis e outros onde
As suas casas grandes tem o Conde.

XXII.

‘Stava Francisco alli sublime e dino,
Vermelho como os raios de Vulcano;
Por sceptro tinha um copo crystalino
De cheiroso licor, mas não d’este anno;
Da boca lhe sahia um ar tão fino,
Que em vinho convertêra um tigre hyrcano;
Dos ramos tinha c’rôa rutilante
Em que tornou a Daphne seu amante.

XXIII.

Em lagariças, dornas assentados,
Cubertos de mosquitos que voavam,
Os mais bebados são agasalhados,
Sem ordem nem razão se assentavam.
Precedem os menores aos honrados;
E assi uns pelos outros se trocavam:
Quando Francisco alto assi dizendo,
Com tom de voz começa grave e horrendo:

XXIV.

Moradores de donde antigamente
Teve Sertorio casa e certo assento,
Se do grande beber da forte gente
De Baccho não perdeis o pensamento,
Deveis de ter sabido claramente
Como é dos fados grandes certo intento
Que por elles s’esqueçam Castelhanos,
Flamengos, Allemães, Italianos.

XXV.

Já lhe foi, bem o vistes, concedido
A um bebado d’estes mais pequeno
Sogigar Caparica e ter bebido
Toda a terra que rega o Tejo ameno.
Camarate lhe tem obedecido,
Póvos se lhe mostrou brando e sereno;
Para que é mais cansar? cousa é notoria
D’Ourem e Figueiró levaram gloria.

XXVI.

Deixo, bebados, toda a fama antiga
Que lá dentro em Lisboa uns alcançaram,
Quando com dez Tudescos n’uma briga
No nosso officio tanto se afanaram.
Tambem deixo a memoria que os obriga
A grande nome quando se tomaram
C’um soldado Hollandez, c’um Biscainho,
Quando a carga do frasco era só vinho.

XXVII.

Agora vêdes bem que vem bebendo,
E cada qual já traz seu couro leve,
Pelas charnecas sêccas, não temendo
Sequidão dos Pegões, a mais se atreve;
Que havendo tantos já que as partes vendo
Onde o copo comprido tem por breve,
Inclinam seu proposito e porfia
A ver os vinhos que Evora teria.

XXVIII.

Promettido lhe tem Baccho o governo
Da rua das adegas celebrada,
Onde vinhos lhe tem que os de Falerno,
Os do Rhim, ou de Alcache tem em nada.
Bem sabeis que se vem chegando o inverno,
Esta gente vem sêcca e esgotada,
Já parece bem feito que lhe seja
Mostrada Peramanca que deseja.

XXIX.

E porque, como ouvistes, tem passados
Na viagem tão asperos perigos,
Tantos vinhos vinagres esgotados,
Nas Vendas novas, nos Pegões antigos;
Que sejam determino agasalhados
Entre as quintas aqui de seus amigos,
E enchendo cada qual a sua bota
Comecem a seguir sua derrota.

XXX.

Taes palavras Francisco assi dizia,
Quando todos sem ordem respondendo,
Na sentença um do outro differia,
Razões diversas dando e recebendo.
Mas Pero Vaz alli não consentia
No que Francisco disse, conhecendo
Que esqueceria um bebado eminente
Se cá viesse beber aquella gente.

XXXI.

A bebados ouvira que viria
Uma gente de copo tão estranha,
Pela charneca, a qual esgotaria
Tudo quanto Louredo e Lagem banha;
E com beberes novos venceria
A todos os famosos d’Allemanha.
Altamente lhe dóe perder a gloria
Na taça em que de todos tem victoria.

XXXII.

Vê que de Evora teve sogigado
Os bebados e o vinho, e nunca caso
Lhe tirou por insigne ser louvado
Té dos imigos d’agoa do Parnaso.
Teme agora que seja sepultado
Seu tão celebre nome em negro vaso
D’agoa do esquecimento, se lhe chegam
Os bebados insignes que navegam.

XXXIII.

Sustentava contra elle o Catigela,
Affeiçoado á gente bebedana,
Por quantas bebedices vira n’ella,
Jantando em Alcochete uma semana.
Affeiçoado vem da gente bella,
Que por brazões os copos tem ufana,
De quem a lingua é tal, se o copo empina,
Que ora parece grega, ora latina.

XXXIV.

Estas cousas se movem em uma cêa
Onde apenas um ao outro s’entende,
Um d’elles tem a vinda em boa estrêa,
Outro ás picheladas a defende;
Assi que um pela infamia que recêa,
E outro pelo gasto que pretende,
Porfiam, arrebessam, permanecem,
A quasquer seus amigos favorecem.

XXXV.

Qual o fervente mosto em talha escura,
Quando a tinta lhe lançam espremida,
Por aqui, por alli sair procura
Com impeto e braveza desmedida;
A adega brame toda co’a fervura,
Bota o bagulho fóra a escuma erguida,
Tal andava o tumulto levantado
Entre um bebado e outro apaixonado.

XXXVI.

Mas um que a esta gente sustentava,
E d’entre todos elles mais bebia,
Ou porque o amor do vinho o obrigava;
Ou porque o seu beber o merecia,
Tremelicando alli se levantava,
Olhando a quem primeiro brindaria;
Um borrachão famoso pendurado,
Trazia ao tiracolo ao esquerdo lado.

XXXVII.

Do pichel a viseira rutilante
Levantada, de vinho branco e puro,
Por dar-lhe de beber a pôz diante
De Francisco com taes armas seguro,
E dando uma pancada penetrante
C’o grande borrachão no sólo duro,
O chão tremeu, e um d’elles de torvado,
Uma gran vez tomou sobre um bocado.

XXXVIII.

E diz: Ó bebado alto, a cujo imperio
Os vinhos obedecem que encerraste,
Se aquelles que em ti buscam refrigerio,
Cujo beber soberbo tanto amaste,
Não queres que padeçam vituperio,
Pois que esta adega hoje lhe mostraste,
Não ouças mais, pois bebado és direito,
A quem em bebedices é suspeito.

XXXIX.

Porque se o copo aqui se não mostrasse
Vencido d’esta gente e infamado,
Bem fôra que aqui Baccho o sustentasse,
Que o territorio seu deixa esgotado,
Mas esta tenção sua agora passe,
Porque em fim vem de estomago danado;
E nunca beba mais vinho de Beja
Quem do beber alheo tem inveja.

XL.

E tu pois que padre és da borracheza,
Não consintas que bebam por canada;
E porque mostres mais tua grandeza,
Com pipas, quartos seja agasalhada:
Tragam-lhe alguns leitões lá da deveza
De conserva azeitona e retalhada,
Sardinha de Liceira que é conforme
Que a sêde se repare e se reforme.

XLI.

Como isto disse o bebado famoso
O grão Francisco ledo consentiu,
E uma taça de vinho mui cheiroso
Logo sobre elles todos esparsiu.
Cada um pelo caminho desgostoso
Da rua das adegas se partiu,
Providos de beber seus instrumentos
Tornaram para os frios aposentos.

XLII.

Em quanto este conselho na famosa
Adega se passou, aquella gente
Pisando a charneca sequiosa
Beber deseja d’Evora a agoa-ardente.
E chegando á Amieira lamarosa,
Onde o caminho vem de Benavente,
Se algum licor trazia de Lyeo,
Sem gota lhe ficar alli o bebeo.

XLIII.

Tão rijamente os odres despejavam
Como em terra que tem de vinho abrigo;
Mas se tanto bebiam confiavam
No Thomé dos Pegões que era amigo.
Á desejada venda já chegavam
Onde os abraça o seu compadre antigo;
E em signal que da vinda se alegrava,
Novos vinhos que tinha lhe mostrava.

XLIV.

Vasco Bagulho que era o capitão
Que ás Bacchanaes venturas se offerece,
De soberbo e altivo borrachão,
A quem fortuna em copo favorece,
Para se aqui deter não vê razão,
Que a terra não dá vinho ao que parece.
Por diante passar determinava
Mas impediu-lh’o o vinho que chegava.

XLV.

Eis que apparece logo em companhia
Uma recova d’asnos de Castella,
Que gran copia de vinho lhe trazia,
Que foi fermosa vista, cousa bella.
Alvoroçam-se todos de alegria,
Desejam já provar a causa d’ella:
Que tal será o vinho alli diziam,
De que logares estes o trariam?

XLVI.

Os seus borrachões eram de maneira
Que pipas pareciam mui compridas,
Agasalha-os com festa a taverneira
Por suas taças ver melhor providas,
O vinho bota em vasos de madeira.
Enchendo do restante as mais medidas.
Senta-se á meza logo em continente,
Para beber tambem com esta gente.

XLVII.

E do que os Castelhanos vem providos
Começam a comer todos sentados,
Que uns d’azeitonas vem apercebidos,
Outros de uns pexinhos bem salgados.
E os que de manjares vem despidos,
Começam a mandar vir alhos assados,
E sobre isto aos outros vão brindando,
Os castelhanos vinhos festejando.

XLVIII.

Estando assi comendo, eis que chegavam
Outros que lhes pediam que esperassem,
Porque para beber desafiavam
Os mais famosos tres que alli se achavam.
Vinho trazem tambem, o qual gavavam,
Pedindo aos assentados que provassem:
Para provar do vinho um fóra salta,
Que no beber aos outros mais se exalta.

XLIX.

Não tem descarregado a agoa-ardente,
Quando o que saltou fóra já bebia;
Começa de gaval-o á sua gente,
Dizendo que parece malvasia.
O tarverneiro então em continente
Tal gente recebeu com alegria.
Enchem vasos de vinho e do que deitam
Os que vem e os que estão nem gota engeitam.

L.

Comendo alegremente perguntavam,
Com lingua onde as palavras se detinham,
D’onde era o licor branco que gostavam
E se vermelho entre elle tambem tinham.
De Castella os marranos lhe tornavam
Que si, e suas mercês de donde vinham?
Disse um d’elles: De junto a Benavente,
Vimos a Evora a beber sómente.

LI.

De Riba-tejo temos já provado
Os vinhos, e as adegas temos visto,
Caparica deixamos esgotado
Molto sudando nel glorioso acquisto.
E de um bebado somos tão amado,
Tão querido de todos e bem quisto,
Que não no largo mar com leda fronte,
Mas de vinho entraremos n’uma fonte.

LII.

E por mandado seu buscando vamos
A terra que Louredo em torno rega,
Depois que os quartos todos esgotamos
Da Telha, Lavradio, Aldea-gallega.
Mas já razão parece que saibamos,
Se entre vós a verdade se não nega,
Quem sois, que vinho é este que buscaes,
E se tendes do d’Evora alguns signaes.

LIII.

Somos, um dos do vinho lhe tornou,
Estrangeiros na terra e na nação,
Que os proprios são aquelles que criou
A terra que sovado come o pão.
A lei cega tivemos que ensinou
Aquelle descendente de Abrahão,
Que vinho não bebeu quente nem frio;
Intendami chi può, che m’intend’io.

LIV.

Esta pequena venda aonde estamos
É de nossa passagem certa escala,
Onde ás vezes taes vinhos nós gostamos,
Que acontece ficar homem sem falla.
E por ser terra esteril procuramos,
Cada vez que passamos, visital-a.
Comem aqui e bebem tanto a pique,
Que prometto que o Fuentes cedo enrique.

LV.

E pois que tantos odres despejaes
Se d’Evora buscaes o vinho ardente,
Guiando-vos irei, té que sejaes
Postos em Monte-mór seguramente,
Onde será bem feito que vejaes
O tridentino André que é o bebente
Que essa terra governa, e que vos veja,
Para que d’alguns vinhos vos proveja.

LVI.

Dizendo isto o Mourisco carregou
Os seus odres, deixando a companhia,
D’ella e do vendeiro se apartou;
Bebe cada um sua vez por cortezia;
Os novos companheiros acceitou
Com mostras de prazer e d’alegria,
Dizendo a cada um que caminhasse,
E quem beber quizesse que o tomasse.

LVII.

A noite se passou na leda frota
Com estranha alegria não cuidada,
Por acharem em terra tão remota
A venda nova d’elles desejada.
Disse o Mourisco alli: Venga la bota!
Na castelhana lingua d’elle usada.
Elles que no beber tanto se esmeram,
A seu mandado logo obedeceram.

LVIII.

Do vinho alegres côres rutilavam
Pelas taças de vidro crystallino;
As velhas azeitonas que lhes davam
Festejam mais que flôres e boninas,
Da venda os taverneiros s’espantavam
Do cheiro e do sabor das agoas finas,
Porém a demais gente não provava
O bom licor que entre esta se brindava.

LIX.

Mas assi como a Aurora marchetada
As fermosas borrachas lhe mostrou
Áquella gente meia atordoada,
Cada qual d’elles sua vez tomou.
Começa a embebedar-se a camarada,
Que de fermosos frascos se adornou,
Para beber com festa e alegria
C’o bebedor da terra que partia.

LX.

Partia alegremente, desejando
De beber já com gentes tão ufanas,
Que por charnecas sêccas caminhando,
Vem a beber em terras Transtaganas.
A borracha que traz vem empinando
Do licor que se vende não com canas.
Já chega, mas sem gota o Tridentino;
E quem sem gota está é bem mofino.

LXI.

Recebem-no alli alegremente,
O Mourisco com sua companhia,
E dá-lhe d’azeitonas um presente,
Que para tal effeito já trazia.
Dá-lhe sardinha frita; salta o ardente
Licor, com que elle tem tanta alegria.
Tudo o Marques contente bem recebe,
Mas triste está com ver que ninguem bebe.

LXII.

Estava o Granadino mui confuso
Com ver que não tem já de vinho nada,
Com que brinde ao bebente, como é uso,
Que para o receber fez tal jornada.
Reprende o companheiro seu abuso,
Pois sequer não deixára uma canada
Para enxaugoar a boca ao que trazia
Do fresco Monte-mór a alegre via.

LXIII.

Porque em chegando diz que ver deseja
Do vinho os instrumentos; que não crê
Que tão honrada gente alli esteja,
Sem terem pelo menos agoa-pé.
Mas os outros a quem nada sobeja
Do licor da boa planta de Noé,
Aos vendeiros pedem que alli ‘stavam,
Das fundagens que para si guardavam.

LXIV.

E disse um d’elles: pois que em tal sazão
Viemos que entre nós nem gota havia,
Quero-vos dar alguma informação
De nós, em quanto o vinho lá se avia.
Posto que granadino é de nação
Este homem que nos serve aqui de guia,
Perto está de Lisboa a patria nossa,
Buscamos Peramanca amada vossa.

LXV.

Deixamos esgotado todo o imperio
Que Baccho em nossas terras tem visivel;
Vimos correndo agora este hemispherio,
Porque beber por lá não é soffrivel:
E posto que sofframos vituperio,
Por um largo beber tudo é soffrivel:
Que melhor é vergonha em quem bebeu,
Que a dôr por não soffrer q’outrem soffreu.

LXVI.

Porque bastava só vinho infinito,
Que não ha nem gota já na companhia,
Que é tal, e no beber tem tal esp’rito,
Que inda um Tejo de vinho esgotaria.
Se as vasilhas quer ver como tem dito,
Cumprido esse desejo te seria:
Vasias as verás, que eu me obrigo
Que sempre assi ‘starão, s’imos comtigo.

LXVII.

Isto dizendo mostram diligentes
Os vasos com que apagam as seccuras;
Mostram fermosos frascos e as pendentes
Borrachas que em caminhos são seguras:
Os odres nas medidas differentes,
Cobertos d’encouradas vestiduras:
Outras borrachas trazem por aljavas,
De còrno copos grandes, taças bravas.

LXVIII.

Chega n’isto o vendeiro diligente
Com as suas fundagens saborosas;
Bebe d’ellas André alegremente,
Desafiando as gentes tão famosas.
Mas d’entre elles um bebado valente
Responde-lhe que as gentes valerosas
Não sahiam a um; e com razão,
Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.

LXIX.

Mas d’isto que André Marques bem notou
E de tudo o que ouviu no copo attento,
Um odio certo n’alma lhe ficou
Uma vontade má de pensamento.
Nas obras e no gesto o não mostrou,
Mas com risonho e ledo fingimento
Tratal-os brandamente determina,
Até que mostrar possa o que imagina.

LXX.

Piloto lhe pedia o capitão
Por quem podesse a Evora ser levado,
Polo qual lhe daria um borrachão
De vinho de Valbom que é extremado.
André lh’o prometteu, mas com tenção
De peito venenoso e tão danado,
Que a morte, se podesse, n’este dia
Em logar de piloto lhe daria.

LXXI.

Tal odio lhe ficou e má vontade
Da resposta que aquelle lhe tornou,
Que agoa lhe ordena dar com falsidade
Em logar do licor que Noé deixou.
Oh que caso cruel! oh que maldade!
Que de uma só palavra que soltou
D’este que elle buscava como amigo
O faz ficar seu perfido inimigo!

LXXII.

Partiu-se n’isto André, sem companhia
Dos bebados que tinha despedido,
Com engano seu e grande cortezia,
O gesto ledo a todos e fingido.
Já sobre seu asninho se subia
Com vinho de que ia apercebido,
E quando se desceu no aposento
Não levava a borracha mais que vento.

LXXIII.

Da rua das adegas o Thebano,
Que da parternal coxa foi nascido,
Olhando o ajuntamento tão ufano,
Ser do seu bom André aborrecido,
No pensamento cuida um falso engano
Com que seja de todo destruido.
E em quanto isto n’alma imaginava
Um borrachão tomando assi fallava.

LXXIV.

Está do Fado já determinado
Que em tantas bebedices tão famosas
Se tenham d’estes bebados achado,
As suas taças sempre victoriosas;
E eu Baccho tão sublime e tão honrado
Bebado, e mais de partes tão honrosas,
Hei de soffrer que o Fado favoreça
Outrem por quem meu copo se escureça?

LXXV.

Já quizeram os Fados que tivesse
Esta genta victoria n’esta parte,
Cujos campos o Tejo reverdece;
E que com tanto vinho não se farte!
Pois não se ha de soffrer que o Fado desse
A tão poucos tamanho esforço e arte,
Que venham beber vinho transtagano,
Abatendo o gran nome do Thebano.

LXXVI.

Não será assi: porque antes que chegado
Seja Vasco Bagulho, astutamente
Lhe será tanto engano fabricado,
Que nunca beba d’Ev’ra o vinho ardente.
A Monte-mór irei, e o indignado
Peito rovolverei do bom bebente:
Porque sempre per via irá direita
Aquelle que no vinho agoa não deita.

LXXVII.

Isto dizendo irado e quasi insano
N’esse Monte-mór fresco se desceu,
Onde tomando a fórma e gesto humano,
Para onde estava o Marques se moveu:
E por melhor tecer o astuto engano,
No gesto natural se converteu
De Talha-manco muito seu valido,
Um Taverneiro velho conhecido.

LXXVIII.

Estando assi bebendo co’elle a horas
Á sua falsidade accommodadas,
Lhe diz como eram gentes roubadoras.
Estas que ora de novo são chegadas,
Que das gentes nas vendas moradoras
Correndo a Fama veio que roubadas
Foram por estes homens que passavam,
Que sob capa de paz sempre ancoravam.

LXXIX.

E sabe mais, lhe diz, como entendido
D’estes bebados tenho bagulhentos,
Que deixam Riba-tejo destruido
Em beber com incendios violentos:
E trazem já de longe o engano urdido
Contra nós; que todos seus intentos
São para os nossos vinhos esgotarem,
E pipas, toneis, quartos, despejarem.

LXXX.

E tambem sei que tem determinado
Da virem buscar vinho aqui mui cedo,
Mas ter-lhe-hemos um tal ardil traçado
Que não cheguem a ver o de Louredo.
Á justiça darás logo recado
Que estes galantes prenda, que sem medo
Pelo caminho roubam, pela estrada,
E só com furtos bebem na jornada.

LXXXI.

E se assi não tivermos d’este feito
Impedido o caminho totalmente,
Eu tenho imaginado no conceito
Outra manha e ardil que te contente.
Manda-lhe aqui dar guia que de geito
Seja astuto no engano e tão prudente,
Que os leve adonde sejam submergidos,
Onde a agoa dê fim a seus sentidos.

LXXXII.

Tanto que estas palavras acabou,
O Tridentino André, bebado velho,
Os braços ao pescoço lhe lançou,
Agradecendo muito o tal conselho.
Em se apartando d’elle concertou
Para os poder prender todo o apparelho,
Com que em puro desgosto lhe tornassem
D’Evora o vinho puro que buscassem.

LXXXIII.

E busca mais para o cuidado engano
Um homem que d’alli com elle mande,
Sagaz, astuto, sabio em todo o dano,
De quem fiar se possa um quarto grande.
Diz-lhe que acompanhando o Alcochetano
Por ribeiras, por charcos com elle ande,
Que se d’aqui passar, que lá adiante
Vá cahir onde nunca se levante.

LXXXIV.

Já o carro d’Apollo caminhava
Pelo nosso horizonte, quando erguido
O bom Vasco c’os seus determinava
De vir por vinho á terra apercebido.
Os borrachões a gente desatava,
Corre-se cada qual não ter bebido;
E do que á venda veio novamente
Beberam todos logo em continente.

LXXXV.

Assi se vem chegando junto á terra
Para tomar o vinho necessario;
Mas o Marques o vinho todo encerra
Só pelo não beber o seu contrario.
Porém Vasco Bagulho que não erra
Em não se fiar d’este adversario,
Apercebido vem como podia
E entra em Monte-mór com alegria.

LXXXVI.

O grão Marques que o vê logo desmaia,
Diz á Justiça que ande apparelhada
De pistolete, chuça e azagaia,
De rodela, de casco e boa espada;
E que em dando recado logo saia,
Porque tome esta gente atordoada.
E para que melhor isto se faça
Vae-se beber com elles per negaça.

LXXXVII.

Bebendo André co’a gente sequiosa,
Andam os beleguins fóra espreitando,
E co’a chuça e azagaia perigosa
Ao Marques se entraram acenando.
Mas a gula que estava desejosa
De beber, sem recado vão entrando.
Qualquer se lança ao copo tão ligeiro,
Que nenhum dizer póde que é primeiro.

LXXXVIII.

Qual pobre ajuntamento d’estudante
De quatro, cinco ou seis de camarada
Que vê que é pouco o vinho e não bastante,
Que ha para todos só uma canada;
Qualquer d’elles pertende andar diante,
Por lhe não tocar vez esfarrapada:
Tal pressa ha nos de fóra e nos da terra,
Mas todos se vão já chegando á serra.

LXXXIX.

Eis no estomago o fumo se levanta
Da furiosa e quente companhia,
Que de tal modo bebem que se encanta
O vendeiro que o vinho lhes vendia.
A multidão dos fumos era tanta
Do vinho que á cabeça lhes subia,
Que logo o Alcaide foge de medroso,
De que o Marques ficou mui desgostoso.

XC.

Não deixam os que ficam sua empreza,
Mas o muito que bebem mal os trata,
Que se o beber tomavam por defeza,
Esse mesmo beber os desbarata.
Alegres ficam todos sem tristeza,
Já julgam a amizade por barata,
E trocam seus enganos á porfia
Pelo amor que do vinho lhes nascia.

XCI.

Vae-se cada um a casa retirando,
Porque quer vomitar muito apressado;
Quem arrota, e alli vae engulhando,
Na boca mette a mão desatinado.
O vendeiro fugiu, desamparando
A venda, do beber amedrontado;
Gloriam-se os que ficam do seu braço
Que a tantos afugenta em breve espaço.

XCII.

Uns deixam por alli suas espadas,
Dos outros quem a leva não o sente;
Quem se deixa cair ás tres passadas,
Quem bebe o vinho e o deita juntamente.
Arrombam as medidas ás pancadas,
Á parede se arruma o mais valente;
Assim que a gente d’antes inimiga
Com tão alto beber se torna amiga.

XCIII.

Passando isto, fica a camarada
Com gosto de haver feito tal empreza;
Manda logo fazer de vinho agoada,
Porque d’alli não quer outra riqueza.
Ficou a alma do Marques magoada,
No odio antigo mais que nunca acceza;
E vendo sem vingança tanto dano,
Sómente estriba no segundo engano.

XCIV.

Torna-se a elles, tendo-a já cozido,
Levando alguns refrescos que ha na terra,
Com um frasco de vinho mui comprido,
Mas sob capa de paz armado em guerra.
Piloto lhe offerece conhecido,
Dizendo que em taes vias jámais erra,
Com o qual se fizesse o que esperava,
Que a Evora os levaria confiava.

XCV.

O gran Vasco Bagulho, a quem convinha
Fazer já seu caminho desejado,
Que Borrachões não poucos cheos tinha,
Para buscar Louredo tão amado;
Recebendo o piloto que lhe vinha,
Foi d’elle alegremente agasalhado.
Despede-se com gran contentamento,
C’o guia, sem saber o falso intento.

XCVI.

Dest’arte despedida a gente honrada,
Começou a seguir o falso guia.
Não tinham meia legoa bem andada,
Quando do bom caminho se desvia.
O bom Vasco que não cahia em nada
Do grande engano que este tal lhe urdia,
D’elle mui largamente se informava
A que parte Louredo lhe ficava.

XCVII.

Mas o guia instruido nos enganos
Que o malvado do Marques lh’ensinára,
Leva-os por partes onde crueis danos
E morte em fim em agoas lhe prepara.
Diz-lhes que vão contentes, vão ufanos,
Que mui prestes verão a terra cara;
Porque elle caminhava por tal via,
Que cedo a Peramanca os levaria.

XCVIII.

E diz-lhes mais, com falso pensamento,
Que esta via por mais breve tomou,
Posto que um rio tem, mas sem tormento
E sem perigo sempre se passou.
O Bagulho que a tudo estava attento,
Muito com estas novas se alegrou;
E com grandes copadas lhe rogava
Os levasse por donde o porto estava.

XCIX.

O falso guia, porque determina
Dar-lhe porto, mas não qual elle pede,
Posto em Rio Marinho lh’o imagina
N’um pégo que em altura os mais excede.
Aqui o engano e a morte lhe maquina,
Para que tal beber com pressa véde;
E para o porto verem logo os chama
Onde lhe arma perderem vida e fama.

C.

Já para lá inclina a leda frota
E em chegando ao rio da cilada,
Um descalça o sapato, o outro a bota,
Para ir buscar a morte não cuidada.
Chega um bebado n’isto, que remota
Lhe parece esta gente e enganada,
E com duras palavras reprehendia
D’entrarem em tal pégo a ousadia.

CI.

Mas o malvado guia conhecendo
Ser manifesto o engano, n’um instante,
Se vae por uns outeiros acolhendo,
Corrido de não ir a sua ávante.
Os outros que ficavam ‘stão tremendo,
Cuidando qu’inda o engano era diante;
Mas o que os tirou d’elle, mui contente
Lhes diz que irá com elles juntamente.

CII.

Ficam todos então com alegria,
Bebem e dão de beber ao que os guiava.
Um olha para o ceo, e diz que via
Mais luas do que d’antes costumava.
Duas luas a mi, Senhor, dizia,
Ao Mouro, ao infiel que vos aggrava.
Outro a um tronco diz; bebei, Senhora,
Senão deitar-vos-hei os olhos fóra.

CIII.

E tendo esta ribeira já passada,
Onde os quiz afogar o falso guia,
A torre appareceu n’uma assomada
Onde matou Giraldo a má vigia.
Á mão direita fica situada
Uma povoação de que bebia
A gente principal da nossa idade,
Peramanca é o nome da cidade.

CIV.

E sendo o capitão aqui chegado
Estranhamente ledo, porque espera
De ser alli mui bem agasalhado
Dos refrescos que ha n’aquella terra:
Eis vem frascos de vinho com recado
De Diogo que sabe a gente que era,
Porque Baccho já d’antes o avisára
Que de bom vinho alli os regalára.

CV.

Agasalha-os a todos como amigos;
Preza-se já cada um de fallar certo,
Dando conta de todos os perigos,
Que em caminho passaram tão desertos.
Não curam de lhe dar uvas nem figos,
Mas o licor que deixa o olho esperto.
Quer imitar cada um o gran Barbança
Que pôz n’este licor sua esperança.

CVI.

Aqui já vem tomar, livre d’engano
Anda esta gente pouco conhecida,
E debaixo de um vil e pobre panno
Tão alta bebedice anda escondida,
Quem bebe vinho velho, quem d’este anno,
D’um e d’outro s’entorna sem medida.
E assi favoreceu o Ceo sereno
A quem deixou por vinho o seu terreno.

FIM.

Fragmentos do Passado

Que a Library of Congress disponibiliza agora no youtube, encontramos personagens e situações bem interessantes.

 

“Part of Edison’s “New Niagara Falls series: The following subjects were all taken on the latest and most improved clear stock during December 1896, and should not be confounded with former negatives, which were not entirely satisfactory.” From Maguire & Baucus catalogue: Shows glittering ice background and a group of photographers preparing to take pictures.”

Aung San Suu Kyi – Nobel Lecture

Existem pessoas que são formidáveis e conseguem vencer mesmo perante as situações mais difíceis, é este o caso de Aung San Suu Kyi e por isso vale a pena ler o seu discurso de aceitação do prémio Nobel, 11 anos depois de o ter vencido. Não há nada mais precioso e frágil que a liberdade.

“Nobel Lecture by Aung San Suu Kyi, Oslo, 16 June, 2012

Your Majesties, Your Royal Highness, Excellencies, Distinguished members of the Norwegian Nobel Committee, Dear Friends,

Long years ago, sometimes it seems many lives ago, I was at Oxford listening to the radio programme Desert Island Discs with my young son Alexander. It was a well-known programme (for all I know it still continues) on which famous people from all walks of life were invited to talk about the eight discs, the one book beside the bible and the complete works of Shakespeare, and the one luxury item they would wish to have with them were they to be marooned on a desert island. At the end of the programme, which we had both enjoyed, Alexander asked me if I thought I might ever be invited to speak on Desert Island Discs. “Why not?” I responded lightly. Since he knew that in general only celebrities took part in the programme he proceeded to ask, with genuine interest, for what reason I thought I might be invited. I considered this for a moment and then answered: “Perhaps because I’d have won the Nobel Prize for literature,” and we both laughed. The prospect seemed pleasant but hardly probable.

(I cannot now remember why I gave that answer, perhaps because I had recently read a book by a Nobel Laureate or perhaps because the Desert Island celebrity of that day had been a famous writer.)

In 1989, when my late husband Michael Aris came to see me during my first term of house arrest, he told me that a friend, John Finnis, had nominated me for the Nobel Peace Prize. This time also I laughed. For an instant Michael looked amazed, then he realized why I was amused. The Nobel Peace Prize? A pleasant prospect, but quite improbable! So how did I feel when I was actually awarded the Nobel Prize for Peace? The question has been put to me many times and this is surely the most appropriate occasion on which to examine what the Nobel Prize means to me and what peace means to me.

As I have said repeatedly in many an interview, I heard the news that I had been awarded the Nobel Peace Prize on the radio one evening. It did not altogether come as a surprise because I had been mentioned as one of the frontrunners for the prize in a number of broadcasts during the previous week. While drafting this lecture, I have tried very hard to remember what my immediate reaction to the announcement of the award had been. I think, I can no longer be sure, it was something like: “Oh, so they’ve decided to give it to me.” It did not seem quite real because in a sense I did not feel myself to be quite real at that time.

Often during my days of house arrest it felt as though I were no longer a part of the real world. There was the house which was my world, there was the world of others who also were not free but who were together in prison as a community, and there was the world of the free; each was a different planet pursuing its own separate course in an indifferent universe. What the Nobel Peace Prize did was to draw me once again into the world of other human beings outside the isolated area in which I lived, to restore a sense of reality to me. This did not happen instantly, of course, but as the days and months went by and news of reactions to the award came over the airwaves, I began to understand the significance of the Nobel Prize. It had made me real once again; it had drawn me back into the wider human community. And what was more important, the Nobel Prize had drawn the attention of the world to the struggle for democracy and human rights in Burma. We were not going to be forgotten.

To be forgotten. The French say that to part is to die a little. To be forgotten too is to die a little. It is to lose some of the links that anchor us to the rest of humanity. When I met Burmese migrant workers and refugees during my recent visit to Thailand, many cried out: “Don’t forget us!” They meant: “don’t forget our plight, don’t forget to do what you can to help us, don’t forget we also belong to your world.” When the Nobel Committee awarded the Peace Prize to me they were recognizing that the oppressed and the isolated in Burma were also a part of the world, they were recognizing the oneness of humanity. So for me receiving the Nobel Peace Prize means personally extending my concerns for democracy and human rights beyond national borders. The Nobel Peace Prize opened up a door in my heart.

The Burmese concept of peace can be explained as the happiness arising from the cessation of factors that militate against the harmonious and the wholesome. The word nyein-chan translates literally as the beneficial coolness that comes when a fire is extinguished. Fires of suffering and strife are raging around the world. In my own country, hostilities have not ceased in the far north; to the west, communal violence resulting in arson and murder were taking place just several days before I started out on the journey that has brought me here today. News of atrocities in other reaches of the earth abound. Reports of hunger, disease, displacement, joblessness, poverty, injustice, discrimination, prejudice, bigotry; these are our daily fare. Everywhere there are negative forces eating away at the foundations of peace. Everywhere can be found thoughtless dissipation of material and human resources that are necessary for the conservation of harmony and happiness in our world.

The First World War represented a terrifying waste of youth and potential, a cruel squandering of the positive forces of our planet. The poetry of that era has a special significance for me because I first read it at a time when I was the same age as many of those young men who had to face the prospect of withering before they had barely blossomed. A young American fighting with the French Foreign Legion wrote before he was killed in action in 1916 that he would meet his death:  “at some disputed barricade;” “on some scarred slope of battered hill;” “at midnight in some flaming town.” Youth and love and life perishing forever in senseless attempts to capture nameless, unremembered places. And for what? Nearly a century on, we have yet to find a satisfactory answer.

Are we not still guilty, if to a less violent degree, of recklessness, of improvidence with regard to our future and our humanity? War is not the only arena where peace is done to death. Wherever suffering is ignored, there will be the seeds of conflict, for suffering degrades and embitters and enrages.

A positive aspect of living in isolation was that I had ample time in which to ruminate over the meaning of words and precepts that I had known and accepted all my life. As a Buddhist, I had heard about dukha, generally translated as suffering, since I was a small child. Almost on a daily basis elderly, and sometimes not so elderly, people around me would murmur “dukha, dukha” when they suffered from aches and pains or when they met with some small, annoying mishaps. However, it was only during my years of house arrest that I got around to investigating the nature of the six great dukha. These are: to be conceived, to age, to sicken, to die, to be parted from those one loves, to be forced to live in propinquity with those one does not love. I examined each of the six great sufferings, not in a religious context but in the context of our ordinary, everyday lives. If suffering were an unavoidable part of our existence, we should try to alleviate it as far as possible in practical, earthly ways. I mulled over the effectiveness of ante- and post-natal programmes and mother and childcare; of adequate facilities for the aging population; of comprehensive health services; of compassionate nursing and hospices. I was particularly intrigued by the last two kinds of suffering: to be parted from those one loves and to be forced to live in propinquity with those one does not love. What experiences might our Lord Buddha have undergone in his own life that he had included these two states among the great sufferings? I thought of prisoners and refugees, of migrant workers and victims of human trafficking, of that great mass of the uprooted of the earth who have been torn away from their homes, parted from families and friends, forced to live out their lives among strangers who are not always welcoming.

We are fortunate to be living in an age when social welfare and humanitarian assistance are recognized not only as desirable but necessary. I am fortunate to be living in an age when the fate of prisoners of conscience anywhere has become the concern of peoples everywhere, an age when democracy and human rights are widely, even if not universally, accepted as the birthright of all. How often during my years under house arrest have I drawn strength from my favourite passages in the preamble to the Universal Declaration of Human Rights:

……. disregard and contempt for human rights have resulted in barbarous acts which have outraged the conscience of mankind, and the advent of a world in which human beings shall enjoy freedom of speech and belief and freedom from fear and want has been proclaimed as the highest aspirations of the common people,

…… it is essential, if man is not to be compelled to have recourse, as a last resort, to rebellion against tyranny and oppression, that human rights should be protected by the rule of law . . .

If I am asked why I am fighting for human rights in Burma the above passages will provide the answer. If I am asked why I am fighting for democracy in Burma, it is because I believe that democratic institutions and practices are necessary for the guarantee of human rights.

Over the past year there have been signs that the endeavours of those who believe in democracy and human rights are beginning to bear fruit in Burma. There have been changes in a positive direction; steps towards democratization have been taken. If I advocate cautious optimism it is not because I do not have faith in the future but because I do not want to encourage blind faith. Without faith in the future, without the conviction that democratic values and fundamental human rights are not only necessary but possible for our society, our movement could not have been sustained throughout the destroying years. Some of our warriors fell at their post, some deserted us, but a dedicated core remained strong and committed. At times when I think of the years that have passed, I am amazed that so many remained staunch under the most trying circumstances. Their faith in our cause is not blind; it is based on a clear-eyed assessment of their own powers of endurance and a profound respect for the aspirations of our people.

It is because of recent changes in my country that I am with you today; and these changes have come about because of you and other lovers of freedom and justice who contributed towards a global awareness of our situation. Before continuing to speak of my country, may I speak out for our prisoners of conscience. There still remain such prisoners in Burma. It is to be feared that because the best known detainees have been released, the remainder, the unknown ones, will be forgotten. I am standing here because I was once a prisoner of conscience. As you look at me and listen to me, please remember the often repeated truth that one prisoner of conscience is one too many. Those who have not yet been freed, those who have not yet been given access to the benefits of justice in my country number much more than one. Please remember them and do whatever is possible to effect their earliest, unconditional release.

Burma is a country of many ethnic nationalities and faith in its future can be founded only on a true spirit of union. Since we achieved independence in 1948, there never has been a time when we could claim the whole country was at peace. We have not been able to develop the trust and understanding necessary to remove causes of conflict. Hopes were raised by ceasefires that were maintained from the early 1990s until 2010 when these broke down over the course of a few months. One unconsidered move can be enough to remove long-standing ceasefires. In recent months, negotiations between the government and ethnic nationality forces have been making progress. We hope that ceasefire agreements will lead to political settlements founded on the aspirations of the peoples, and the spirit of union.

My party, the National League for Democracy, and I stand ready and willing to play any role in the process of national reconciliation. The reform measures that were put into motion by President U Thein Sein’s government can be sustained only with the intelligent cooperation of all internal forces: the military, our ethnic nationalities, political parties, the media, civil society organizations, the business community and, most important of all, the general public. We can say that reform is effective only if the lives of the people are improved and in this regard, the international community has a vital role to play. Development and humanitarian aid, bi-lateral agreements and investments should be coordinated and calibrated to ensure that these will promote social, political and economic growth that is balanced and sustainable. The potential of our country is enormous. This should be nurtured and developed to create not just a more prosperous but also a more harmonious, democratic society where our people can live in peace, security and freedom.

The peace of our world is indivisible. As long as negative forces are getting the better of positive forces anywhere, we are all at risk. It may be questioned whether all negative forces could ever be removed. The simple answer is: “No!” It is in human nature to contain both the positive and the negative. However, it is also within human capability to work to reinforce the positive and to minimize or neutralize the negative. Absolute peace in our world is an unattainable goal. But it is one towards which we must continue to journey, our eyes fixed on it as a traveller in a desert fixes his eyes on the one guiding star that will lead him to salvation. Even if we do not achieve perfect peace on earth, because perfect peace is not of this earth, common endeavours to gain peace will unite individuals and nations in trust and friendship and help to make our human community safer and kinder.

I used the word ‘kinder’ after careful deliberation; I might say the careful deliberation of many years. Of the sweets of adversity, and let me say that these are not numerous, I have found the sweetest, the most precious of all, is the lesson I learnt on the value of kindness. Every kindness I received, small or big, convinced me that there could never be enough of it in our world. To be kind is to respond with sensitivity and human warmth to the hopes and needs of others. Even the briefest touch of kindness can lighten a heavy heart. Kindness can change the lives of people. Norway has shown exemplary kindness in providing a home for the displaced of the earth, offering sanctuary to those who have been cut loose from the moorings of security and freedom in their native lands.

There are refugees in all parts of the world. When I was at the Maela refugee camp in Thailand recently, I met dedicated people who were striving daily to make the lives of the inmates as free from hardship as possible. They spoke of their concern over ‘donor fatigue,’ which could also translate as ‘compassion fatigue.’ ‘Donor fatigue’ expresses itself precisely in the reduction of funding. ‘Compassion fatigue’ expresses itself less obviously in the reduction of concern. One is the consequence of the other. Can we afford to indulge in compassion fatigue? Is the cost of meeting the needs of refugees greater than the cost that would be consequent on turning an indifferent, if not a blind, eye on their suffering? I appeal to donors the world over to fulfill the needs of these people who are in search, often it must seem to them a vain search, of refuge.

At Maela, I had valuable discussions with Thai officials responsible for the administration of Tak province where this and several other camps are situated. They acquainted me with some of the more serious problems related to refugee camps: violation of forestry laws, illegal drug use, home brewed spirits, the problems of controlling malaria, tuberculosis, dengue fever and cholera. The concerns of the administration are as legitimate as the concerns of the refugees. Host countries also deserve consideration and practical help in coping with the difficulties related to their responsibilities.

Ultimately our aim should be to create a world free from the displaced, the homeless and the hopeless, a world of which each and every corner is a true sanctuary where the inhabitants will have the freedom and the capacity to live in peace. Every thought, every word, and every action that adds to the positive and the wholesome is a contribution to peace. Each and every one of us is capable of making such a contribution. Let us join hands to try to create a peaceful world where we can sleep in security and wake in happiness.

The Nobel Committee concluded its statement of 14 October 1991 with the words: “In awarding the Nobel Peace Prize … to Aung San Suu Kyi, the Norwegian Nobel Committee wishes to honour this woman for her unflagging efforts and to show its support for the many people throughout the world who are striving to attain democracy, human rights and ethnic conciliation by peaceful means.” When I joined the democracy movement in Burma it never occurred to me that I might ever be the recipient of any prize or honour. The prize we were working for was a free, secure and just society where our people might be able to realize their full potential. The honour lay in our endeavour. History had given us the opportunity to give of our best for a cause in which we believed. When the Nobel Committee chose to honour me, the road I had chosen of my own free will became a less lonely path to follow. For this I thank the Committee, the people of Norway and peoples all over the world whose support has strengthened my faith in the common quest for peace. Thank you.”

Não conheço a canção….

mas se soubesse cantava com eles também, bem alto todos os dias…. e quando o anormal fosse preso punha a tocar em loop na cela dele.

para quem não sabe é a canção que Breivik disse odiar, fala do arco-íris, das flores a crescer,  igualdade e fraternidade. É que lavagens cerebrais destas eu quero que todas as crianças tenham…sou a favor.

A sério, era prisão perpétua sem pensar duas vezes, como castigo na cela a passar sem interrupção, um video com a história das vitimas, uma por uma contada por amigos e familiares, para eles os conhecer bem um a um terem rosto, história, não serem números. Na solitária sem poder contactar com ninguém.

História que não devemos esquecer – 5 de Abril de 1992

Este é o testemunho de Christiane Amanpour a propósito dos 20 anos da Guerra na Bósnia.

Twenty years ago, April 5, 1992, Suada Dilberovic and Olga Sucic were shot and killed in Sarajevo. They were the shots heard around the world and they started the Bosnian War.

I covered that war, and many colleagues are gathering in Sarajevo now to commemorate what took hundreds of thousands of lives, left so many more wounded, and created millions of refugees. This was the war that introduced us to the term “ethnic cleansing.”

The dominant Balkan power at the time, Serbia wanted to keep Yugoslavia together, and failing that, to carve out ethnically pure areas in the breakaway states to create a Greater Serbia.

It was a horrible fantasy that sought to destroy an ethnically mixed, intermarried community that had lived peacefully and progressively together in Bosnia.

This war was defining for the region, for the world and for those of us who covered it.

We witnessed the heroic resistance of a population under siege and shelling and sniping for nearly four years. We learned the pain of watching men, women and children brutally slaughtered. These were the non-combatants, casually targeted in the crosshairs of the sniper’s rifle, blown apart by mortar shells when they went to collect water, bread, fuel or even heading to school.Sarajevo’s ‘Romeo and Juliet’

We learned the bitter cynicism of the international community that refused for some time to intervene, the United States and its allies finding every which way, and every tortured rhetorical device — including refusing to use the word genocide — to avoid getting off the sidelines.

I will never forget going to the funerals, one for a little girl called Almedina. Sarajevo had run short of everything even the letter “A” so Almedina’s grave marker could not be spelled correctly.

I will never forget the mothers and fathers who would try to brave the siege around Sarajevo airport, then try to make a dash to the other side where in one village they could buy or scrounge some fresh fruit or vegetables, anything to complement the meager rations and dried food the humanitarian airlift would bring.

The night I was out there, a father managed to find a single apple for his child. For that he had risked his life.

On Friday more than 11,000 empty chairs will be arranged in silent poignant and powerful memory of Sarajevo’s war dead.

Along with the citizens of Sarajevo and other besieged Bosnian towns and villages, many of our colleagues were killed and wounded.

And who will ever forget the death camps, the skeletal prisoners who evoked the terrible crimes of World War II? But this was at the end of the 20th century. This was the satellite age. We were there and we reported the story day in and day out, week after week, month…year after year.

This was the era of “never again” and it was happening again — ethnic cleansing and genocide here in our own backyard, and on our watch. We fought back with all the power of our media.

For me, Bosnia was where I learned about the truth. Horrified when the do-nothing crowd suggested I was taking sides, or losing my objectivity, I was forced to confront this charge, and examine our Golden Rule.

Here in Bosnia I determined that in the face of unspeakable crimes and the most serious violations of international humanitarian order, there is no moral equivalence, no blurring the line between victim and aggressor.

Objectivity means giving all sides a fair hearing. It does not mean drawing a false moral equivalence. In this case there is no one-hand-or-the other. And anyone who seeks to hide under that calumny is not just a liar, but an accessory, in this case to genocide.

I refused. It is the lesson of my lifetime.

As we all know, tens of thousands of deaths later including at Srebrenica in the summer of 1995, the worst massacre in Europe since World War Two, the U.S. finally intervened with NATO allies, ended the war and launched the peace that holds to this day.

No country, no crisis, is the same. Of course Syria is not Bosnia, nor is it Libya, but in Syria today a heavily armed military is besieging and slaughtering ordinary civilians and outgunned rebels too as the state tries to crush an uprising.

Just like in Bosnia, the Syrian rebels/opposition have been denied the right to self defense, for fear of “accelerating the conflict on the ground and making it worse.”

Just like in Bosnia when the U.S. and its allies said they could not intervene “because it’s a civil war and all sides are equally guilty,” (although that was not the case as there was a clear aggressor) in Syria today they say they “don’t know who to help, who to arm, the opposition is fragmented.”

The lesson of Bosnia is that our democratic and free world which seeks to uphold the highest values bestowed on humankind, could no longer watch as ordinary civilians were butchered.

It’s a lesson that took too long to implement, and the peace is not perfect, but at least the killing stopped.”


O Cerco a Sarajevo por quem o viveu!

Pela jornalista Maria João Carvalho:

“No dia 6 de abril de há 20 anos teve início o cerco de Sarajevo. Eu podia apenas vestir a t-shirt comprada que afirma “I survived Sarajevo… twice”. Mas não. Eu estive lá. E não tenho grandes sobressaltos ao revisualizar imagens com som das explosões, não. O meu problema sempre foi com os iatos, o silêncio. Quatro cadáveres de crianças apanhadas por uma granada de obus quando brincavam num túnel. Por exemplo. A pausa do médico a quem dei cigarros e perguntei porque não salvava um pé ê ia amputar três membros a uma idosa. O escândalo no olhar dele: “e deixo morrer os outros mutilados para salvar o pé da velha?” Silêncio. O meu, muito envergonhado.
Este fim de semana vamos encontrar-nos, os sobrevivos de Sarajevo, repórteres de guerra e escritores, atores da defesa da cultura durante o atroz sacrifício do bem comum… vamos lembrar o incêndio na biblioteca milenar, o estatelar das granadas nos muros de meio metro em frente ao parlamento e os torniquetes que éramos obrigados a fazer das camisas rasgadas enquanto os carros da UNPROFOR passavem sem parar como gente doida – “a ONU não permite o socorro a civis, neste mandato”…ainda ecoa na minha cabeça. E os bósnios atreviam-se a sair de casa, durante os bombardeamentos, e a trazer veículos para levarmos aqueles corpos meio desfeitos ao Kosova Hospital. Os médicos, enfermeiros e voluntários, eram alvejados quando nos ajudavam a retirar aquela gente dos atrelados. E a nossa ausência era fatalmente justificada com “menos ou mais um jornalista”! Neste caso tenho de admitir na minha categoria dos Heróis sem Tempo” todos os civis de Sarajevo, de todas as etnias, que ajudaram a salvar vidas. Bem Hajam.
Por mim, os anos de sofrimento por ainda ter pernas, levaram-me quase a perder uma. Até que compreendi o meu dever de testemunho e a minha enorme dívida para com os que me desviaram da minha morte ou morreram em vez de mim, com as balas e granadas que me foram destinadas. Gracias, Ortega. Salam Alekum, Ibhraim. Arigato, Kori. Obrigada, Capitão Santana… e tantos outros. E obrigada a todos os atores que levaram à cena durante o cerco a peça Abrigo e me convidaram para sobreviver com eles durante dois dias. Gracias a La Vida, como diria Joan Baez.”